'Morreu sendo um guerreiro', diz mãe em velório do bebê

Família do Miguel, de Sorocaba (SP), entrou na Justiça e fez boletim de ocorrência para conseguir atendimento médico. Dias após ser internado no Incor, em São Paulo, criança teve parada cardíaca durante um procedimento.

O bebê Miguel, que tentava atendimento e cirurgia adequados para tratar as deficiências múltiplas com que nasceu, foi enterrado no início da tarde deste sábado (5), em um cemitério de Sorocaba (SP). Ele tinha pouco mais de 1 mês de vida e não chegou a ir para casa desde que nasceu.

A criança, que foi diagnosticada com a Síndrome de Edwards, morreu na sexta-feira (4), no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Incor).

A família de Miguel chegou a acionar a Justiça e registrar um boletim de ocorrência contra o poder público para conseguir cirurgia para o problema do filho.

Mas nove dias depois de conseguir transferência para o Incor, Miguel teve uma parada cardíaca durante uma cirurgia pulmonar, por conta do agravo da situação do estado de saúde.

"Eu lutei até o fim por ele. Ele lutou até o fim também. Morreu sendo um guerreiro", desabafou a mãe do Miguel, Gedália Jovino, durante o velório, em Sorocaba, onde a família recebeu o apoio e o carinho de amigos e parentes.

O Incor chegou a dizer que Miguel ficaria internado por tempo indeterminado. A unidade afirmou que, pela gravidade do estado de saúde, não havia indicação cirúrgica de correção na patologia no coração.

Em nota após a morte, o Incor informou que a causa foi parada cardíaca refratária e que o bebê não resistiu ao procedimento cirúrgico que foi indicado na tentativa de melhorar a condição clínica dele.

A cirurgia foi programada com o propósito de adequar o fluxo sanguíneo pulmonar e, consequentemente, melhorar fluxo de sangue no organismo.

Síndrome de Edwards

Os médicos diagnosticaram que o Miguel tinha a Síndrome de Edwards, que provoca alterações neurológicas, motoras e cardíacas. A cirurgia de sexta-feira era a primeira de uma série de operações que o bebê teria que fazer.

Logo que nasceu, os médicos descobriram que ele tinha deficiência nos braços e nas pernas e um problema grave no coração.

Luta pela sobrevivência

O procedimento cardíaco pediátrico era apenas um dos que o menino precisava. De acordo com a mãe do bebê, os exames realizados durante a gestação não detectaram qualquer anormalidade no feto.

A empregada doméstica notou que havia algo errado com o filho nos primeiros minutos após o parto.

Além da deficiência nos membros, o menino nasceu com furos no coração. “O que mais me assustou foi que ninguém viu nada disso, muitas coisas poderiam ser feitas se tivesse visto ainda do parto”, desabafou, no primeiro dia de vida de Miguel, em entrevista.

Batalha jurídica

A família entrou na Justiça e conseguiu quatro decisões obrigando a Prefeitura de Sorocaba a transferir o Miguel ou pagar a cirurgia dele em um hospital particular.

Uma liminar da juíza Erna Thecla Maria Hakvoort, da Vara da infância e Juventude, havia determinado o sequestro de verba pública no valor de R$ 746.491,00 para ser depositada em juízo para a realização da cirurgia no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Com base no sequestro da verba, e impasse da cirurgia e vagas entre o Estado e a prefeitura, a advogada chegou a pedir que o dinheiro fosse depositado diretamente na conta do hospital.

Em outra decisão, a juíza incluiu a Fazenda Pública Estadual na ação e atendeu a um pedido do Ministério Público.

Mas a prefeitura recorreu de todas as decisões da Justiça alegando que a responsabilidade era do estado e não do município.

A pedido do Ministério Público, a Justiça então incluiu a Secretaria Estadual de Saúde no processo. Foi quando, no dia 25 de abril, que saiu a vaga para o recém-nascido, sendo transferido para o Incor.

Em nota, a Prefeitura de Sorocaba afirmou ter solicitado a transferência do menino para cirurgia. "A cirurgia e a regulação de vagas são de competência da Secretaria do Estado de Saúde. Por conta disso, a Secretaria de Saúde de Sorocaba (SES) recorreu da determinação e está em contato com o Estado para a resolução o mais rápido possível desse processo".

A Secretaria de Estado da Saúde chegou a informar que não tinha nenhum pedido de internação ou transferência em nome de Miguel ou da mãe dele.

O enterro do bebê Miguel foi no Cemitério Memorial Park, às 13h, em Sorocaba.

Artigos Recomendados